O Conto da Ilha Desconhecida – José Saramago (Resenha literária)

Nesse livro pequenino, Saramago encheu uma piscina de bolinhas e a chamou de oceano. Somos convidados a uma jornada diminuta e incomum, e apesar de não ser épica, trata-se de uma catarse bem familiar – através do amor.

Exímio narrador, o autor discorre com linguagem dura e precisa. Tentemos, logo na primeira página, substituir a palavra impetrante. Sinônimos não dão conta.

E os detalhes? O rei escrevendo a autorização sobre o ombro da mulher da limpeza, a cadeirinha de palha, os jogos circulares de palavras. Tango de semântica e lógica. Que sortilégio é esse de que o autor se vale para construir tais símbolos com material tão concreto? Difícil tarefa essa de expor tanta alegoria sem figuras de linguagem. Saramago é especial.

Sofremos por falta de boa literatura agora. Digo agora porque ontem mesmo Umberto Eco nos presenteou. Mais do que isso, sofremos por falta de escritores em português. Ler Saramago acende a importância e valor da língua portuguesa. Cada escritor eleva a sua própria língua, e é adorável o que o autor faz com a nossa. Ele vem ao nosso socorro não apenas na palavra mas na abordagem da nossa pós-modernidade. Foi dito acima que essa catarse é familiar: o lançar-se ao mar; a busca da própria identidade; o crescimento em amor. Ainda por cima há uma caravela! Mesmo assim, o assunto é abordado em cenário contemporâneo (porque não, atemporal) e a forma escolhida vai além da alinhação com nosso tempo, contém identificação profunda nos questionamentos. Por vezes são coisas frívolas, mas que nos pesam e confundem. Prioridades estilhaçadas, instituições demolidas.

                                                                                    “No mar das palavras boia um labirinto de portas”
Termino com tags às portas que deparei                                                                                                                                   Texto e desenho por Sara Kim
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