ENTREVISTA COM SAMPANDANDO

São Paulo é uma cidade “poluída, mal organizada e frenética” e (só) por isso, grande parte dos seus moradores vivem reclamando e maldizendo a metrópole. Porém, a cidade, por seu tamanho e importância, é muito mais do que alguns adjetivos comuns a todas as metrópoles. E é por isso que Gui Santana, estudante de jornalismo, criou o Sampandando, um dos parceiros do IrrigaVale.

Acompanhe esta linda entrevista (ou declaração de amor pela cidade) realizada com ele:

Ventilador de Cultura: Como surgiu a idéia de criar o Sampandando?

Sampandando: Vou começar dizendo que eu não gostava de São Paulo, sempre achei que a cidade era muito poluída, mal organizada e frenética. Quando terminei o ensino médio, me inscrevi em um cursinho pré-vestibular no bairro da Liberdade e nas horas vagas eu ficava andando sem rumo pela região. A imagem que eu tinha do Centro era a da violência, da Cracolândia e da Rua 25 de Março, mas quando cheguei ao entorno da Praça da Sé fiquei surpreendido, ninguém tinha me falado da riqueza de pessoas que o Centro atrai, das construções históricas que vão desde o gótico ao neoclássico em confronto com o moderno; não me falaram dos museus, os milhares de sebos, o Teatro Municipal, os músicos, mágicos, artistas e artesãos que se apresentam todos os dias nas calçadas, e até mesmo os moradores de rua, que nos acostumaram a vê-los e trata-los como bandidos ou animais, quando na verdade são pessoas de bem na maioria dos casos; sim, são desafortunados, mas com uma visão bem particular e única do que são as ruas e a cidade.

Nessas andanças pela cidade conheci muita gente interessante e lugares inusitados escondidos entre uma construção e outra. Eram lugares e pessoas que confrontavam o pobre e o rico, o arcaico e o moderno, e nisso descobri a riqueza de São Paulo, que é a sua diversidade, mesmo que nela estejam incluídos diversos problemas sociais. Então vi que eu havia perdido bastante tempo dizendo que não gostava de São Paulo, e como havia pessoas que ainda diziam a mesma coisa sem conhecer de fato a cidade.

Enfim, quando eu consegui entrar na faculdade de jornalismo, e por ter estudado fotografia por conta própria já há algum tempo, decidi fazer uma página que inspirasse as pessoas a saírem sem rumo pela cidade e se surpreenderem com ela, daí veio o Sampandando. Os textos e ilustrações são todos originais, feitos por mim, a maioria das fotografias também, só uso imagens de terceiros – claro, sempre creditando o autor –  quando é algo que eu não consegui registrar por conta própria; além dos curtas metragens que já estou produzindo especialmente para a página e que logo estarão no ar.

No Sampandando eu conto um pouco da história da cidade, escrevo às vezes alguma crônica do cotidiano paulistano e um pouco sobre urbanismo (afinal, precisamos pensar melhor sobre nossa cidade), mas o foco principal é mostrar lugares inusitados e quem são e o que pensam o paulistano e aqueles que foram atraídos para essa cidade que é uma das mais cosmopolitas do mundo.

Ventilador de Cultura: Como você vê a parceria IrrigaVale – Sampandando? Que vantagens um projeto trás para o outro? Quais são as relações entre os dois projetos?

Sampandando: É como costumam dizer, uma mão lava a outra.  São Paulo está cheio de cabeças pensantes, de pessoas que produzem mais por instinto do que para receber algo em troca. É aí que o IrrigaVale entra, pois é um projeto que reúne essas pessoas “independentes” e fora do circuito para exporem suas idéias e seu trabalhos em uma mostra pública e comunitária, duas palavras que por si só já representam necessidades  crônicas da cidade. O que mais me agrada é o fato do IrrigaVale ser um evento formado em sua maioria por pessoas totalmente desconhecidas umas das outras, mas que se conectaram através da cidade para uma ocupação coletiva, e isso é realmente transformador.

Ventilador de Cultura: Qual você acha que é a relação do IrrigaVale com a cidade de São Paulo e sua história?

Sampandando: O IrrigaVale e São Paulo tem tudo a ver, acredito que não teria lugar e momento melhores para a realização do projeto. Digo isso porque tanto o IrrigaVale quanto a cidade de São Paulo tem em comum o fato de unirem pessoas de diversas origens, ofícios e historias para se relacionarem entre si, criando uma forte conexão que, pra mim, já explica tudo.

Ventilador de Cultura: Hoje em dia as pessoas tem cada vez menos paciência para ler textos longos. Como o Sampandando vê isso? Pela sua experiência, dá para contornar essa situação?

Sampandando: É, realmente, com tanta oferta de conteúdo na internet o leitor acaba ficando cada vez mais exigente ou sem tempo para acompanhar tudo. Mas também acredito que a qualidade do texto é inerente ao número de caracteres. Por exemplo, no caso do Sampandando a maioria dos textos são curtos, mas seguem uma certa cronologia, ou seja, alguns vão desencadeando os outros como se fossem pequenos capítulos do mesmo livro. Acredito que para páginas do gênero do Sampandando, quanto mais minimalismo e simplicidade forem adotados, melhor. O meu objetivo não é tanto o de informar profundamente o leitor e rechea-lo de informações, mas aguçar a sua visão e interpretação da cidade – e os textos pequenos são um ótimo formato para se atingir esse objetivo. Mas também escrevo alguns textos um pouco mais extensos quando vou tratar de assuntos que merecerem maiores explicações como, por exemplo, quando eu queria explicar quem eram, como agiam e o que pensavam os grupos de skinheads de São Paulo.

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